O Nobel de Física e as próximas fronteiras da cosmologia

Escrito em 03/10/2017


O Prêmio Nobel de Física de 2017 foi dado a Rainer Weiss, Barry Barish e Kip Thorne pela descoberta das ondas gravitacionais – na verdade, não só pela descoberta das ondas, mas também por terem dado contribuições fundamentais à construção do observatório que realizou a façanha, o Ligo (sigla de Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory), nos Estados Unidos. Se pelo menos um dos nomes não é estranho ao leitor, é porque Thorne ajudou o diretor Christopher Nolan a tornar o filme Interestelar o mais realista possível, e até escreveu um livro explicando a ciência do filme.
Há cerca de 100 anos, Albert Einstein publicou a chamada Teoria da Relatividade Geral, uma ideia revolucionária para a natureza das interações gravitacionais. Inicialmente, ele não acreditou na existência de ondas gravitacionais e chegou a tentar publicar um artigo no qual provava que não existiam. Felizmente, um revisor o advertiu de que havia erros de interpretação matemática no trabalho. Com o ego ferido, depois de protestar muito, Einstein acabou alterando os resultados e mostrou que as ondas gravitacionais poderiam existir – vaidade e sorte também são ingredientes importantes da ciência.
As ondas gravitacionais são semelhantes às ondas na água geradas por uma pedra lançada num lago. A perturbação da pedra é transmitida na forma de ondas, que se propagam à velocidade do som no líquido. Quanto mais longe da origem, menor a intensidade da onda. A gravidade age no próprio espaço-tempo e, portanto, as ondas gravitacionais se propagam com a velocidade da luz. Há muitas maneiras de gerar essas ondas; o mecanismo mais comum é movimentar um objeto com grande massa de forma rápida. Quanto mais rápido o movimento e mais massivo o objeto, maior a intensidade das ondas.
As primeiras tentativas de detectar ondas gravitacionais começaram na década de 60 do século passado, mas não funcionaram. O desafio para detectá-las é enorme: as ondulações chegam até nós com uma intensidade muito baixa. Os físicos tentaram medir as variações no comprimento de corpos de prova de laboratório, pois, à medida que a onda faz o tecido do espaço-tempo vibrar, encolhe e estica os objetos.
Em 1974, os astrônomos Joseph Taylor e Russel Hulse conseguiram fazer uma medição indireta de ondas gravitacionais. Observaram um par de estrelas de nêutrons em uma órbita muito pequena, girando em altíssima velocidade. Eles foram capazes de medir o período da órbita com grande precisão e mostraram que estava diminuindo. As estrelas estavam se aproximando, pois perdiam energia de rotação na forma de ondas gravitacionais. As ondas em si não foram detectadas, somente o seu efeito, que fechou perfeitamente com a previsão da Teoria da Relatividade Geral. Os dois cientistas ganharam o Nobel de Física de 1993 pela descoberta do objeto binário e pela primeira comprovação da existência de ondas gravitacionais. Mas ainda restava a importante tarefa de observá-las diretamente.
É aí que entra o trabalho gigantesco dos três laureados deste ano. Um trabalho em física teórica e experimental, mas também político. Eles lideraram milhares de cientistas na construção do Ligo. Por quase 50 anos, eles e vários outros cientistas angariaram verbas governamentais, promoveram estudos científicos e fizeram muito lobby para conseguir construir o Ligo e torná-lo capaz de fazer a detecção. Dedicaram a vida a esse projeto. O observatório consiste em dois tubos que foram um “L” – cada braço tem 4 quilômetros de comprimento. Pelos braços são lançados feixes de laser. Quando uma onda gravitacional passa pelo braço, as alterações no laser permitem que os físicos determinem o quanto o braço encolheu e esticou. Para evitar detecções espúrias, pois qualquer vibração pode causar efeitos semelhantes, há dois observatórios idênticos, separados por mais de 3 mil quilômetros. A detecção só é considerada verdadeira se acontecer simultaneamente nos dois observatórios e com o mesmo padrão.
Em 11 de fevereiro de 2016, os cientistas do Ligo sacudiram o mundo da física ao anunciar a primeira detecção de uma onda gravitacional. Análises indicaram que se tratou da fusão de dois buracos negros. Um processo como esse libera quantidades enormes de energia que puderam ser detectadas aqui na Terra. O evento durou menos de um segundo e aconteceu a aproximadamente 1,4 bilhão de anos-luz de nós. Ao chegar aqui, a onda fez o braço de 4 km do Ligo oscilar em alguns milionésimos do tamanho de um próton! Depois dessa detecção, foram feitas outras três. A mais recente, em agosto desse ano, e pela primeira vez também foi observada por outro observatório de ondas gravitacionais, o Virgo, que fica na Itália.
O Nobel de Física deste ano é, portanto, o segundo Nobel concedido para descobertas sobre ondas gravitacionais. Agora, no entanto, as potencialidades são muito maiores. Além de verificar a existência das ondas gravitacionais e testar a Teoria da Relatividade Geral, os astrofísicos contam com mais um instrumento de medição. Fusões de buracos negros não podem ser observadas com telescópios normais. Entender como os buracos negros se formam e evoluem é um dos grandes desafios da física atual. Para a cosmologia também abre-se uma nova era. Nos primeiros milhares de anos após o Big Bang, o universo era quente demais para que a luz se propagasse. Não conseguimos estudar esse momento com os telescópios usuais. Mas as interações gravitacionais eram intensas e se propagaram livremente pelo tecido do espaço-tempo. Os vestígios gravitacionais dessa era são o próximo alvo dos observatórios gravitacionais.

Deus e Evolução

Avery Dulles, S.J.
Publicado em First Things (outubro de 2007)
http://www.firstthings.com/article.php3?id_article=6038

Durante a segunda metade do século dezenove, ficou comum falar de uma guerra entre ciência e religião. Mas no curso do século vinte, aquela hostilidade gradualmente diminuiu. Seguindo as pegadas do Segundo Concílio Vaticano, João Paulo II no começo de seu pontificado estabeleceu uma comissão para revisar e corrigir a condenação de Galileu no seu julgamento de 1633. Em 1983 ele organizou uma conferência celebrando o 350° aniversário da publicação de “Diálogo relativo a duas novas ciências”, no qual ele comentou que a experiência do caso Galileu levou a Igreja “para uma atitude mais madura e uma compreensão mais exata da autoridade própria dela”, permitindo-a distinguir melhor entre “elementos essenciais à fé” e “sistemas científicos de uma época”.
De 21 a 26 de setembro de 1987, o papa patrocinou uma semana de estudos sobre ciência e religião em Castelgandolfo. Em 1° de junho de 1988, refletindo sobre os resultados desta conferência, ele enviou uma carta positiva e encorajadora ao diretor do Observatório do Vaticano, guiando um meio termo entre a separação e a fusão das disciplinas. Ele recomendou um programa de diálogo e interação, no qual ciência e religião procurariam nem suplantar e nem ignorar uma à outra. Elas deveriam procurar juntas por uma compreensão mais profunda das competências e limitações de cada uma, e deveriam olhar especialmente para os aspectos em comum. A ciência não deveria tentar tornar-se religião, nem a religião procurar tomar o lugar da ciência. A ciência pode purificar a religião do erro e da superstição, enquanto a religião purifica a ciência da idolatria e de falsos absolutos. Cada disciplina deve, portanto, manter sua integridade e estar aberta aos vislumbres e descobertas da outra.
Em uma mensagem amplamente noticiada sobre evolução para a Pontifícia Academia de Ciências, enviada em 22 de outubro de 1996, João Paulo II observou que, ao passo que há várias teorias da evolução, o fato da evolução do corpo humano a partir de formas inferiores de vida é “mais que uma hipótese”. Mas a vida humana, ele insistiu, era separada de tudo que é menos do que humano por uma “diferença ontológica”. A alma espiritual, disse o papa, não emerge simplesmente de forças da matéria vivente nem é um mero epifenômeno da matéria. A fé nos permite afirmar que a alma humana é imediatamente criada por Deus.
Em alguns círculos o papa foi interpretado como tendo aceitado a visão neo-darwinista de que a evolução é suficientemente explicada por mutações randômicas e seleção natural (ou “sobrevivência do mais apto”) sem nenhum tipo de propósito governante ou finalidade. Procurando compensar esta interpretação errada, Christoph Cardeal Schönborn, o arcebispo de Viena, publicou em 7 de julho de 2005 um op-ed no New York Times, no qual ele citou uma série de pronunciamentos de João Paulo II no sentido contrário. Por exemplo, o papa declarou em uma Audiência Geral de 19 de julho de 1985: “A evolução dos seres humanos, da qual a ciência procura determinar os estágios e discernir os mecanismos, apresenta uma finalidade interna que desperta admiração. Esta finalidade que dirige os seres em uma direção para a qual eles não são responsáveis, obriga a supor uma Mente que é sua inventora, sua criadora”. Nesta conexão, o papa disse que atribuir a evolução humana à chance absoluta seria uma abdicação da inteligência humana.
O cardeal Schönborn também citou o papa Bento XVI, que afirmou na sua missa inaugural como papa em 24 de abril de 2005: “Nós não somos um produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós e o resultado de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um de nós é necessário”.
O artigo do cardeal Schönborn foi interpretado por muitos leitores como uma rejeição da evolução. Algumas cartas ao editor acusaram-no de favorecer uma forma retrógrada de criacionismo e de contradizer João Paulo II. Eles pareceram incapazes de compreender o fato de que ele estava falando a linguagem da filosofia clássica e não estava optando por qualquer posição científica. Sua crítica era dirigida aos neo-darwinistas que se pronunciam em questões filosóficas e teológicas através dos métodos da ciência natural.
Muitas autoridade nestas questões, como Kenneth R. Miller e Stephen M. Barr, nas suas respostas a Schönborn, insistiram que se pode ser um neo-darwinista na ciência e um fiel cristão ortodoxo. Distinguindo diferentes níveis de conhecimento, eles alegaram que o que é randômico do ponto de vista científico, está incluído no plano eterno de Deus. Deus, por assim dizer, joga os dados mas é capaz, por seu conhecimento total, de prever o resultado por toda a eternidade.
Esta combinação de darwinismo na ciência e teísmo na teologia pode ser sustentada, mas não é a posição que Schönborn tentou atacar. Como ele deixou claro em um artigo subsequente em First Things (janeiro de 2006), ele estava fazendo objeções somente àqueles neo-darwinistas – e eles são muitos – que mantém que nenhuma investigação válida da natureza poderia ser conduzida exceto no redutivo modo do mecanismo, que procura explicar tudo em termos de quantidade, matéria e movimento, excluindo diferenças específicas e propósito na natureza. Ele citou um destes neo-darwinistas como declarando: “A ciência moderna implica diretamente em que o mundo é organizado estritamente de acordo com princípios determinísticos ou acaso. Não há quaisquer princípios de propósito na natureza. Não há deuses e nenhuma força modeladora racionalmente detectáveis”.
O cardeal Schönborn observa astutamente que os cientistas positivistas começam excluindo metodologicamente causas finais e formais. Tendo então descrito os processos naturais em termos meramente de causalidade eficiente e material, eles se viram e rejeitam qualquer outro mecanismo de explicação. Eles simplesmente proíbem as questões sobre por que alguma coisa (incluindo vida humana) existe, como nós diferimos em natureza dos animais irracionais, e como nós devemos conduzir nossas vidas.
Nos últimos anos houve uma explosão de literatura ateísta que proclama a autoridade da ciência, e especialmente teorias darwinistas da evolução, em demostrar que é irracional acreditar em Deus. Os títulos de alguns destes livros são reveladores: O fim da fé de Sam Harris1, Quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural de Daniel Dennett2, Deus, um delírio de Richard Dawkins3 e Deus: a hipótese fracassada de Victor J. Stenger4. Os novos ateístas estão escrevendo com o entusiasmo de evangelistas propagando o evangelho do ateísmo e da irreligião.
Estes escritores geralmente concordam em sustentar que evidência, entendida no senso científico, é a única base válida para crença. A ciência realiza observações objetivas por olho e por instrumentos; constrói modelos ou hipóteses para levar em conta o fenômeno observado. Ela então testa as hipóteses deduzindo consequências e vendo se elas podem ser verificadas ou falsificadas pelo experimento. Todos os fenômenos mundanos são presumidamente explicáveis referindo-se à corpos e forças contidos neste mundo. A menos que Deus fosse uma hipótese verificável testada pelo método científico, eles sustentam, não haveria base para crença religiosa.
Richard Dawkins, um porta-voz líder desta nova anti religião, pode ser tomado como um representante da classe. As provas da existência de Deus, ele crê, são todas inválidas, dentre outros defeitos elas deixam sem resposta a questão “Quem fez Deus?” “Fé”, ele escreve, “é o grande pretexto, a grande desculpa para evadir-se da necessidade de pensar e avaliar evidência. ... Fé, sendo crença que não é baseada em evidência, é o principal vício em qualquer religião.” Levado pela sua própria ideologia, ele fala da “frivolidade da mente religiosamente doutrinada.” Ele ostenta que, na busca para explicar a natureza da vida humana e do universo no qual nos encontramos, a religião “está agora completamente superada pela ciência.”
A compreensão de Dawkins de fé religiosa como um compromisso irracional soa ao católico como estranha. O Primeiro Concílio Vaticano condenou o fideísmo, a doutrina de que a fé é irracional. Ele insistiu que fé está e deve estar em harmonia com a razão. João Paulo II desenvolveu a mesma idéia na sua encíclica sobre Fé e Razão, e Bento XVI no seu discurso em Regensburg em 12 de setembro de 2006, insistiu na necessária harmonia entre fé e razão. Naquele contexto, ele apelou por uma retomada da razão em todo seu sentido, compensando a tendência da ciência moderna de limitar a razão ao verificável empiricamente.
Católicos que são especialistas em ciências biológicas têm várias posições diferentes sobre evolução. Como eu indiquei, um grupo, enquanto explicando evolução em termos de mutações randômicas e sobrevivência do mais apto, aceita a posição darwinista como precisa no nível científico mas rejeita o darwinismo como um sistema filosófico. Este primeiro grupo sustenta que Deus, prevendo eternamente todos os produtos da evolução, usa o processo natural da evolução para realizar Seu plano criativo. Seguindo Fred Hoyle, alguns membros deste grupo falam do “princípio antrópico,” entendendo que o universo foi “ajustado” desde o primeiro momento da criação para permitir o surgimento da vida humana.
Um exemplo recente deste ponto de vista pode ser encontrado no livro de 2006 de Francis S. Collins: A linguagem de Deus5. Collins, um mundialmente renomado especialista em genética e microbiologia, foi criado sem qualquer crença religiosa e se tornou um cristão depois de terminar seus estudos em química, biologia e medicina. Seu conhecimento profissional nestes campos convenceu ele de que a beleza e a simetria dos genes e genomas humanos testemunham fortemente em favor de um Criador sábio e amoroso. Mas Deus, ele crê, não precisa intervir no processo da evolução corporal. Collins defende uma teoria de evolução teística que ele designa como posição BioLogos.
Apesar de Collins não ser católico, ele se refere com aprovação às visões de João Paulo II sobre evolução na mensagem de 1996 à Pontifícia Academia de Ciências. Ele baseia-se nos trabalhos do sacerdote anglicano Arthur Peacock, que escreveu o livro intitulado Evolução: A amiga disfarçada da fé6. Ele cita com satisfação as palavras do presidente Bill Clinton, que declarou em uma celebração do Projeto Genoma Humano na Casa Branca em junho de 2000: “Hoje nós estamos aprendendo a linguagem com a qual Deus criou a vida. Estamos tendo ainda mais reverência pela complexidade, pela beleza e maravilha do mais divino e sagrado dom de Deus.”
Evolucionismo teísta, como o darwinismo clássico, se abstém de afirmar qualquer intervenção divina no processo de evolução. Ele admite que o surgimento dos corpos vivos, incluindo o humano, pode ser explicado no nível empírico através de mutações randômicas e sobrevivência do mais apto.
Mas o evolucionismo teísta rejeita as conclusões ateístas de Dawkins e seus coortes. As ciências físicas, eles defendem, não são a única fonte aceitável da verdade e da certeza. A ciência tem uma competência real, porém limitada. Ela pode nos dizer muito sobre os processos que podem ser observados ou controlados através dos sentidos ou por instrumentos, mas não tem meios de responder questões profundas envolvendo a realidade como um todo. Longe de ser capaz de substituir a religião, ela não pode começar a dizer-nos o que trouxe o mundo à existência, nem porque o mundo existe, nem qual é o nosso destino final, nem como nós devemos agir para sermos o tipo de pessoas que devemos ser.
Visto como um sistema científico, o darwinismo tem algumas características atraentes. Sua grande vantagem é a simplicidade. Ignorando diferenças específicas entre os diferentes tipos de seres e o propósito pelo qual agem, o darwinismo deste tipo reduz todo o processo da evolução para matéria e movimento. Neste nível próprio produz explicações plausíveis que parecem satisfazer muitos cientistas experimentais.
Apesar dessas vantagens, o darwinismo não triunfou completamente, nem mesmo no campo científico. Uma importante escola de cientistas defende uma teoria conhecida como Design Inteligente. Michael Behe, professor na Universidade de Lehigh, defende que certos órgãos dos seres vivos são “irredutivelmente complexos”. Sua formação não pode acontecer por pequenas mutações randômicas porque alguma coisa que tivesse somente algumas, mas não todas as características do novo orgão não teria razão para existir e nenhuma vantagem para sobrevivência. Não faria sentido algum, por exemplo, para a pupila do olho evoluir se não houvesse retina para acompanhá-la, e também não faria sentido haver uma retina sem pupila. Como exemplo de um orgão complexo no qual todas suas partes são interdependentes, Behe propõe o flagelo bacterial, uma ferramenta natatória maravilhosa usada por algumas bactérias.
Neste ponto entramos em uma disputa técnica entre microbiologistas a qual não tentarei julgar. Em favor de Behe e sua escola, podemos dizer que a possibilidade de grandes mudanças súbitas feitas por uma inteligência maior não podem ser previamente descartada. Mas podemos tomar isso como um sonoro princípio de que Deus não intervém na ordem criada sem necessidade. Se a produção de órgãos como o flagelo bacteriano pode ser explicada por acumulação gradual de pequenas variações randômicas, a explicação darwinista deve ser preferida. Por uma questão de política, é imprudente basear a fé de alguém no que a ciência ainda não explicou, porque amanhã ela pode ser capaz de explicar o que não consegue hoje. A história nos ensina que “Deus tapa buracos” geralmente se mostra como uma ilusão.
O darwinismo é criticado, ainda, por um terceira escola de críticos, que inclui filósofos como Michael Polanyi, que se baseia no trabalho de Henri Bergson e Theilhard de Chardin. Filósofos desta orientação, não obstante suas mútuas diferenças, concordam que organismos biológicos não podem ser entendidos somente pelas leis da mecânica. As leis da biologia, sem de modo algum contradizerem aquelas da física e da química, são mais complexas. O comportamento dos organismos vivos não pode ser explicado sem levar em conta seu esforço por vida e crescimento. Plantas, por estenderem-se até a luz solar e alimentação, deixam escapar uma aspiração intrínseca para a vida e o crescimento. Esta finalidade interna as torna capazes de sucessos e falhas de maneiras que pedras e minerais não são. Por causa da lacuna ontológica que separa o vivente do não-vivente, o surgimento da vida não pode ser explicado com base em princípios mecânicos puros.
Em sintonia com esta escola de pensamento, o físico matemático inglês John Polkinghorne defende que o darwinismo é incapaz de explicar porque plantas e animais multicelulares surgem enquanto organismos celulares parecem lidar com mais sucesso ao ambiente. Deve haver, no universo, um impulso para formas mais complexas. O professor de Georgetown John F. Haught, em uma defesa recente do mesmo ponto de vista, observa que as ciências sociais obtém resultados exatos restringindo-se aos fenômenos mensuráveis, ignorando questões mais profundas sobre significado e propósito. Por este método, ela filtra a subjetividade, sentimento e esforço, tudo que é essencial para uma teoria completa da cognição. O darwinismo materialista é incapaz de explicar porque o universo dá origem à subjetividade, sentimento e esforço.
O filósofo tomista Etienne Gilson sustentou vigorosamente em seu livro de 1971 De Aristóteles até Darwin e de volta novamente7 que Francis Bacon e outros perpetraram um erro filosófico quando eliminaram duas das quatro leis de Aristóteles do domínio da ciência. Eles procuraram explicar tudo em termos mecânicos, referindo-se somente a causas materiais e eficientes, descartando causalidade formal e final.
Sem a forma, ou a causa formal, seria impossível explicar a unidade e a identidade específica de qualquer substância. Na composição humana a forma é a alma espiritual, que faz o organismo uma única entidade e o dá seu caráter humano. Uma vez que a forma seja perdida, os elementos materiais se decompõem e o corpo cessa de ser humano. Seria fútil, portanto, tentar definir seres humanos só em termos de seus componentes corporais.
Causalidade final é particularmente importante no domínio dos organismos vivos. Os órgãos do corpo animal ou humano não são inteligíveis exceto em termos de seu propósito ou finalidade. O cérebro não é inteligível sem referência à faculdade do pensamento que é seu propósito, nem são os olhos inteligíveis sem referência à função de ver.
Estas três escolas de pensamento são todas sustentáveis em uma filosofia cristã da natureza. Apesar de eu tender à terceira, reconheço que alguns especialistas bem qualificados professam o darwinismo teístico e o design inteligente. Todas as três destas perspectivas cristãs sobre evolução afirmam que Deus tem um papel essencial no processo, mas concebem o papel de Deus de maneiras diferentes. De acordo com o darwinismo teísta, Deus inicia o processo produzindo desde o primeiro instante da criação (o Big Bang) a matéria e energias que vão gradualmente desenvolver-se em vegetais, animais e eventualmente vida humana na Terra e talvez em mais lugares. De acordo com o design inteligente o desenvolvimento não ocorre sem intervenção divina em alguns estágios, produzindo órgãos irredutivelmente complexos. De acordo com a visão teleológica, o impulso da evolução e seu avanço em graus maiores de ser dependem da presença dinâmica de Deus na sua criação. Muitos adeptos desta escola diriam que a transição da existência físico-química para vida biológica, e as demais transições para vida animal e humana, requer uma dose adicional da energia criativa divina.
A maioria da comunidade científica parece ser ferozmente oposta à qualquer teoria que poderia trazer Deus ativamente para dentro do processo da evolução, como a segunda e a terceira teoria trazem. Cristãos darwinistas correm o risco de conceder demais aos seus colegas ateus. Eles podem estar excessivamente inclinados em garantir que todo o processo de surgimento aconteça sem envolvimento de qualquer entidade superior. Teólogos devem perguntar se é aceitável banir Deus de Sua criação desta maneira.
Muitos séculos atrás, um grupo de filósofos conhecido como Deístas defenderam uma teoria de que Deus teria criado o universo e cessado naquele ponto de ter qualquer influência. Muitos cristãos discordaram firmemente, defendendo que Deus continua a agir na história. No decorrer dos séculos, ele deu revelações aos seus profetas; realizou milagres; enviou seu próprio Filho para se tornar homem; ressuscitou Jesus da morte. Se Deus é tão ativo na ordem sobrenatural, produzindo efeitos que são publicamente observáveis, é difícil descartar, em princípio, todas intervenções no processo da evolução. Por que Deus deveria ser capaz de criar o mundo a partir do nada mas incapaz de agir dentro do mundo que ele fez? A tendência hoje é dizer que a criação não estava completa na origem do universo mas continua à medida que o universo se desenvolve em complexidade.
Phillip E. Johnson, um líder no movimento de Design Inteligente, acusou os cristãos darwinistas de cair em um deísmo atualizado, exilando Deus “para a área sombria anterior ao Big Big” onde ele “não deve fazer nada que possa causar problemas entre teístas e naturalistas científicos”.
A Igreja Católica tem mantido consistentemente que a alma humana não é produto de qualquer causa biológica mas é imediatamente criada por Deus. Esta doutrina levanta a questão de que se Deus não está necessariamente envolvido na criação do corpo humano, uma vez que o corpo humano vem a ser quando a alma é infundida. O advento da alma humana torna o corpo relacionado com ela e portanto humano. Apesar de poder ser difícil para o cientista detectar o ponto no qual o corpo em evolução passa de antropóide para humano, seria absurdo para um animal bruto – digamos, um chimpanzé – possuir um corpo perfeitamente idêntico ao humano.
Cientistas ateus geralmente escrevem como se a única maneira válida de raciocinar fosse a atual na ciência moderna: fazer observações e medidas precisas dos fenômenos, construir hipóteses para explicar as evidências, e confirmar ou negar as hipóteses pelos experimentos. Acredito ser difícil imaginar alguém vindo a acreditar em Deus por este caminho.
É verdade, claro, que a beleza e a ordem da natureza têm frequentemente motivado pessoas a acreditar em Deus como criador. O poder eterno e a majestade de Deus, diz São Paulo, é manifestada para todos a partir das coisas criadas por Deus. Ao povo de Listra, Paulo proclamou que Deus nunca se deixou sem testemunha, “por seus benefícios: dando-vos do céu as chuvas e os tempos férteis, concedendo abundante alimento e enchendo os vossos corações de alegria.”8 Filósofos cristãos elaboraram provas rigorosas baseados nestas revelações espontâneas. Mas estas provas dedutivas não se baseiam no moderno método científico.
Pode ser de interesse que o cientista Francis Collins chegou a acreditar em Deus não tanto a partir de contemplar a beleza e a ordem da criação – muito embora seja impressionante – mas como resultado da experiência moral e religiosa. Sua leitura de C.S. Lewis o convenceu de que há uma lei moral maior à qual estamos incondicionalmente sujeitos e de que a única fonte possível da lei é um Deus pessoal. Lewis também o ensinou a confiar no instinto natural através do qual o coração humano alcança inelutavelmente o infinito e o divino. Qualquer outro apetite natural – como aqueles por comida, sexo e conhecimento – tem um objeto real. Por que, então, deveria a ânsia por Deus ser uma exceção?
Crer em Deus é natural, e a crença pode ser confirmada por provas filosóficas. Entretanto, os cristãos geralmente acreditam em Deus, suspeito, não por causa destas provas mas porque eles reverenciam a pessoa de Jesus, que nos ensina sobre Deus por suas palavras e ações. Não seria possível ser um seguidor de Jesus e ser um ateu.
Cientistas como Dawkins, Harris e Stenger parecem saber pouquíssimo da experiência espiritual dos crentes. Como Terry Eagleton escreveu na sua resenha do livro de Dawkins “Deus, um delírio”, “Imagine alguém discursando sobre biologia mas cujo único conhecimento seja o Livro das Aves Inglesas, e você terá uma vaga idéia do que se sente ao ler Richard Dawkins escrevendo sobre Teologia ... Se racionalistas de carteirinha como Dawkins [fossem consultados] para fazer um julgamento sobre a geopolítica da África do Sul, sem dúvida eles iriam estudar o assunto até o último minuto, tão assiduamente quanto pudessem. Quando se trata de Teologia, porém, qualquer caricatura mal feita é aceitável.”
Alguns ateus cientificistas contemporâneos estão tão envolvidos na metodologia de suas áreas que eles imaginam que ela deva ser o único método para resolver qualquer problema. Mas outros métodos são necessários para lidar corretamente com questões de outra ordem. Ciência e tecnologia (a primavera da ciência) são totalmente inadequadas no campo da moralidade. Enquanto a ciência e a tecnologia aumentam vastamente o poder humano, o poder é ambivalente. Ele pode fazer bem ou mal; a mesma invenção pode ser construtiva ou destrutiva.
A tendência da ciência, quando vence, é realizar qualquer coisa que esteja dentro de sua capacidade, sem respeito a vínculos morais. Como temos experimentado em gerações recentes, tecnologia sem controle por padrões morais tem causado horrores incontáveis no mundo. Distinguir entre o uso certo e errado do poder, e motivar os seres humanos a fazer o que é certo até mesmo quando não se encaixa em sua conveniência, requer recorrer à normas morais e religiosas. Os apelos da consciência deixam claro que estamos inescapavelmente sob uma lei maior que requer de nós comportarmo-nos de certos modos e que julga nossa culpa se a desobedecermos. Nos dirigiríamos em vão aos cientistas para nos informarmos sobre leis maiores.
Alguns evolucionistas defendem que moralidade e religião surgem, evoluem, e persistem de acordo com princípios darwinistas. Religião, eles dizem, tem um valor de sobrevivência para indivíduos e comunidades. Mas este alegado valor de sobrevivência, mesmo que seja real, não nos diz nada sobre a veracidade ou falsidade de qualquer sistema moral ou religioso. Já que questões desta ordem maior não podem ser respondidas pela ciência, filosofia e teologia ainda têm um papel essencial para executar.
Justin Barrett, um psicólogo evolucionário, agora em Oxford, também é um cristão praticante. Ele crê que um Deus onisciente, onipotente, e perfeitamente bom fez os seres humanos para estar em uma relação de amor com Ele com os outros. “Por que não iria Deus,” ele pergunta, “nos planejar de um modo a achar a crença na divindade quase natural?” Mesmo que esses fenômenos mentais possam ser explicados cientificamente, a explicação psicológica não significa que devemos parar de crer. “Imagine que a ciência produza uma explicação convincente de porque eu penso que minha esposa me ama,” ele escreve, “eu deveria, então, parar de crer que nisso?”
Uma metafísica do conhecimento pode nos levar adiante na busca da verdade religiosa. Ela pode nos dar razões para pensar que a tendência natural para crer em Deus, manifestada entre todas as pessoas, não existe em vão. A biologia e psicologia podem examinar o fenômeno de baixo. Mas a teologia vê de cima, como o trabalho de Deus, nos chamando para Ele do fundo do nosso ser. Estamos, por assim dizer, programados para buscar vida eterna na união com Deus, a fonte pessoal e objetivo de tudo que é verdadeiro e bom. Este desejo natural de fixar-se nEle, apesar de poder ser suprimido por um tempo, não pode ser erradicado.
A ciência pode lançar uma luz brilhante nos processos da natureza e pode aumentar vastamente o poder humano sobre o ambiente. Usada corretamente, pode melhorar notavelmente as condições de vida aqui na Terra. Futuras descobertas científicas sobre evolução irão, presumivelmente, enriquecer a religião e a teologia, uma vez que Deus se revela através do livro da natureza bem como através da história redentora. A ciência, entretanto, realiza um desserviço quando clama ser a única forma válida de conhecimento, descartando a estética, a interpessoal, a filosófica e a religiosa.
A recente explosão de ateísmo cientificista é um sinal agoureiro. Se não for controlada, esta arrogância pode levar a um ressurgimento da guerra absurda que atingiu o século XIX, destruindo, deste modo, a harmonia dos diferentes níveis de conhecimento que foram fundamentais para nossa civilização ocidental. Em contraste, o tipo de diálogo entre a ciência evolucionária e a teologia, proposto por João Paulo II pode superar a alienação e levar a um autêntico progresso, tanto para ciência quanto para religião.




O cardeal Avery Dulles, S.J., detém a cátedra Laurence J. McGinley Chair sobre Religião e Sociedade na Universidade de Fordham.






Traduzido por Alexandre Zabot



1NT: Tradução literal, não encontrei título em português.
2NT: Edição traduzida pela Editora Globo
3NT: Edição traduzida pela Cia das Letras
4NT: Tradução literal, não encontrei título em português.
5NT: Edição traduzida pela Editora Gente
6NT: Tradução literal, não encontrei título em português.
7NT: Tradução literal, não encontrei título em português.

8NT: At 14,17. Usei a tradução da Bíblia Ave Maria.

Como o microcosmo e o macrocosmo revelam Deus?

Escrito em 02/02/2016


Diz a Bíliba que “narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 18, 2); e ainda “é a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor” (Sab 13, 5). A natureza revela Deus aos homens pois Ele nos criou capazes de conhecê-Lo e de ler na natureza os sinais da Sua existência. O microcosmo e o macrocosmo revelados pela ciência nos mostram esses sinais de Deus através da beleza, bondade e verdade que podem ser captados pelo homem.
O Catecismo da Igreja Católica (parágrafos 31 a 35) diz que o homem traz em si o desejo de procurar a Deus. É um desejo inscrito pelo próprio Criador. Não importa o quanto queiramos fugir, sempre somos atraídos para Ele. Ninguém explicou isso melhor do que Santo Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.” (Confissões 1, 1).
Mesmo os cientistas ateus pressentem algo de divino nas suas pesquisas. É comum ouví-los falar de “ordem cósmica” ou de “grandes harmonias”. Acontece com eles o que fala santo Agostinho:
"Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar interroga a beleza do ar que se dilata e difunde, interroga a beleza do céu (...) interroga todas estas realidades. Todas te respondem: Estás a ver como somos belas. A beleza delas é o seu testemunho de louvor. Essas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo, que não está sujeite à mudança?" (St Agostinho, Sermão 241. Apud CIC 32)
Todos os físicos que conheço têm uma admiração imensa pela beleza das leis físicas e pela maneira majestosa e sofisticada como a Física é construída a partir da Matemática. Para o cientista, a beleza de uma teoria está ligada à verdade que essa teoria pode representar do mundo natural. Uma teoria feia e desarmoniosa não pode ser correta.
Hoje a Física está construída de tal modo que as leis que regem os fenômenos das escalas mais pequenas (coisas que acontecem dentro do núcleo de um átomo) são importantes para eventos em larga escala do universo. Tudo está conectado, e as explicações para os mais diversos fenômenos se complementam formando um quadro único e harmonioso. Na divulgação científica dos jornais fala-se com frequência dos muitos aspectos que ainda não foram explicados pela ciência, mas na verdade estão tratando de pequenos detalhes de acabamento num edifício enorme e imponente que é a ciência moderna.
Tamanho é o encanto que as descobertas da ciência causam nos cientistas e nas pessoas que muitos se perdem adorando a criação, ao invés do Criador. É comum ouvir falar de uma “consciência cósmica”, ou de uma divindade manifestada nas leis naturais. São expressões neopagãs, que atiram o homem na lama das crendices, da magia e das superstições mais uma vez.
O cristão sabe que a natureza não é Deus, é criatura sua. Tampouco a natureza revela Deus completamente, é só uma sinalização. Infelizmente, o homem ferido pelo Pecado Original já não consegue distinguir com clareza os sinais que Deus nos deixou. Alguns se perdem adorando a natureza, e não o Criador:
"São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando suas obras. Tomaram o fogo, ou o vento, ou o ar agitável, ou a esfera estrelada, ou a água impetuosa, ou os astros dos céus, por deuses, regentes do mundo." (Sab 13, 1s)

O Design Inteligente

Escrito em 03/02/2016


Todos concordam que os seres vivos são complexos, não só na forma, mas também nas funções que seus organimos executam para mantê-los vivos e interagindo com o meio ambiente. Também é bastante claro que há uma diferença de complexidade entre os diversos seres vivos. Bactérias são mais simples que insetos, que por suas vez são mais simples do que mamíferos, ao menos em termos anatômicos. Entretanto, alguns seres são bastante semelhantes a outros em forma e/ou funções, sugerindo algum tipo de proximidade, ou parentesco. Como isso acontece? Como surgiram esses seres e como se desenvolveram as funções que precisam para viver?
Essas breves observações, junto com alguns outros conhecimentos sobre fósseis, genética, fisiologia, anatomia, etc, levaram ao desenvolvimento da chamada Síntese Moderna da Teoria da Evolução, ou neodarwinismo; uma fusão entre as ideias de Darwin e a Genética, com contribuições fundamentais da Bioquímica.
No núcleo da Teoria da Evolução está a observação de que os seres vivos evoluem. A teoria neodarwinista explica essa evolução através de variações genéticas aleatórias e pela sobrevivência do mais forte. Em um grupo de seres surge uma mutação genética que torna esse ser mutante mais apto à sobrevivência naquele momento. Essa maior aptidão o capacita a deixar mais descendentes que levam consigo a mutação. Com o passar do tempo, surge uma nova espécie.
É justamente pelo fato da aleatoriedade estar no centro da teoria neodarwinista que surgem conflitos com a religião, em especial o cristianismo, pois ele ensina que o mundo e principalmente o ser humano, são frutos de um projeto de Deus. Fomos criados, não surgimos de mutações aleatórias sem propósito.
A Igreja Católica não nega o conhecimento científico, mas pelo contrário, afirma que quando está de acordo com o reto uso da razão também é um caminho para Deus, ao lado da fé (cf . Encíclica Fides et Ratio, são João Paulo II). Desse modo, para o católico, não há porque opor o neodarwinismo ao criacionismo. É possível – necessário! – conciliar as duas coisas.
Em 2007 o cardeal Avery Dulles publicou um artigo entitulado “God and evolution” (Deus e a evolução) na revista de teologia First Things. Nesse artigo o cardeal listou três possíveis modos de conciliar o neodarwinismo com o criacionismo sem ferir a doutrina católica (tradução e negritos meus):
“Todas as três destas perspectivas cristãs sobre evolução afirmam que Deus tem um papel essencial no processo, mas concebem o papel de Deus de maneiras diferentes. De acordo com o darwinismo teísta, Deus inicia o processo produzindo desde o primeiro instante da criação (o Big Bang) a matéria e energias que vão gradualmente desenvolver-se em vegetais, animais e eventualmente vida humana na Terra e talvez em mais lugares. De acordo com o design inteligente o desenvolvimento não ocorre sem intervenção divina em alguns estágios, produzindo órgãos irredutivelmente complexos. De acordo com a visão teleológica, o impulso da evolução e seu avanço em graus maiores de ser dependem da presença dinâmica de Deus na sua criação. Muitos adeptos desta escola diriam que a transição da existência físico-química para vida biológica, e as demais transições para vida animal e humana, requer uma dose adicional da energia criativa divina.”
Ao longo do artigo o cardeal Dulles elabora de modo muito didático as principais críticas e pontos fortes de cada posição. Ele se declara partidário da Visão Teleológica, mas deixa claro que os católicos podem defender qualquer umas das três, ao menos de acordo com a doutrina católica.
Bem, eu aproveito a liberdade do cardeal e respeitosamente me declaro partidário do darwinismo teísta. Aliás, não apenas eu, mas praticamente todos os cientistas católicos que conheço. A visão teleológica geralmente é defendida pelos teólogos. Estudando os textos de Ratzinger (papa Bento XVI) parece-me que também essa é sua posição, mas não posso afirmar com certeza pois ele nunca se declarou explicitamente.
São poucos os teólogos, e menos ainda os cientistas, que defendem o chamado Design Inteligente. Como bem colocou o cardeal, a diferença entre as três posições está no quanto Deus interagiria para fazer uma evolução cega caminhar em direção a uma finalidade clara: o ser humano. Os darwinistas teístas afirma que Deus interage pouco, pois já fez o fundamental criando o universo com imensa sabedoria. Os que defendem a visão teleológica pensam que Deus interage com uma frequência baixa, só nos momentos muito cruciais. Por fim, os partidários do Design Inteligente (DI) sustentam que Deus age com muita frequência, sempre que é preciso fazer algo mais complexo.
O grande problema do DI é que ele não é científico, e a visão teleológica tem o perigo de cair num DI com muita facilidade, tornando-se, portanto, também não científica. O DI não é científico porque não faz afirmações que podem ser testadas. A argumentação dos seus defendores sustentam-se quase exclusivamente em críticas à Teoria da Evolução, quase sempre em pontos onde ainda não foi possível explicar um mecanismo evolutivo satisfatório ou em que faltam fósseis como evidência última de que ocorreu uma evolução.
O DI tem um apelo muito forte nos EUA, onde já aconteceram vários julgamentos em tribunais envolvendo pais de alunos e comitês de currículos escolares sobre se o DI deveria ou não ser ensinado nas escolas. Não por acaso, um dos maiores críticos ao DI é o biólogo norte-americano Kenneth Miller, que também é católico e por isso entende bem as sutilezas dos argumentos teológicos envolvidos.
O Dr Miller tem se especializado em debater publicamente com defensores do DI mostrando como o argumento principal deles, a complexidade irredutível, é falso. Segundo essa ideia, alguns órgãos e algumas funções biológicas não poderiam ter surgido por evolução porque são tão complexos que se uma parte faltasse, o todo não poderia funcionar. Um exemplo clássico é o olho: se faltar a retina, a visão estará comprometida, e assim com várias partes da anatomia ocular. Há outros exemplos, como a complexa cadeia bioquímica de coagulação do sangue. Eles concluem que só um Designer Inteligente (Deus) poderia ter feito esses órgãos/funções que são irredutivelmente complexas.
Como eu disse, o grande mérito do Dr Miller foi popularizar artigos técnicos de biologia que demonstram a falsidade do DI evidenciando mecanismos evolutivos para essas partes “mágicas”. Já foi bem explicado como o olho, a coagulação do sangue e outros supostos casos de complexidade irredutível podem surgir com evolução. As explicações contam inclusive com evidências experimentais. Evidentemente, sempre haverá pontos em aberto na ciência, é próprio da investigação científica não possuir respostas definitivas. Assim, os defensores do DI perdem um argumento e procuram outro novo. Por isso, não basta mostrar que eles não propoem uma teoria, mas limitam-se a procurar erros na Teoria da Evolução. Também é preciso mostrar que a ideia deles é inconsistente.
Segundo o Dr Miller, o melhor argumento nesse sentido é olhar para a história evolutiva dos seres vivos e constatar que somente cerca de 1% das mudanças evolutivas permancem ao longo do tempo. Em outras palavras, 99% das novidades são extintas em pouco tempo. Assim, diz ele, “a caracterísca que melhor descreve o Designer Inteligente é a incompetência”. Evidentemente, Deus não pode ser incompetente na sua Criação.
O DI não é uma teoria científica séria, mas uma tentativa de impor um raciocínio religioso à tecnica científica. O pior de tudo é que essa tentativa é feita por meios políticos, convencendo as pessoas que a Teoria da Evolução é contra a fé e a moral. Para piorar, o DI também é uma má teologia, porque sustenta-se no que chamamos de “Deus dos buracos”. Usa Deus para tampar “buracos”, pontos ainda não explicados, pela ciência. O perigo é óbvio: quando a ciência encontrar uma explicação, Deus deixa de ser necessário.
Penso que se a Igreja nos ensina que tanto a ciência quanto a fé nos levam a Deus, o DI não é uma opção para o católico, pois ainda que esteja de acordo com a doutrina – como diz o cardeal Dulles, certamente não está de acordo com o método científico. Resta-nos o darwinismo teológico e a visão teleológica. Ambos têm vantagens e perigos, a discussão está em aberto.

Censura na Ciência

Escrito em 14/03/2016


No início do ano, Ming-Jin Liu e outros colaboradores chineses publicaram um artigo na Revista Científica PLOS ONE sobre os elementos musculares e estruturais da mão que a fazem ser tão versátil em uma quantidade incalculável de tarefas que realiza. O assunto interessa muito à robótica, que tenta copiar as grandes soluções da natureza. Em pouco tempo o artigo virou alvo de um escândalo: os pesquisadores se referiam às finalidades que “o Criador” deu à anatomia da mão. Usaram a palavra “Criador” três vezes no artigo.
A confusão foi tão grande que a Revista “recolheu” o artigo, ou seja, ele foi excluído do seu catálogo. Solução drástica, usada geralmente para casos de plágio ou falsificação de dados Os autores disseram que não passou de um erro de tradução, que se referiram à palavra “Criador” mas que na verdade, em inglês, o melhor termo seria “natureza”. Pediram que o artigo fosse corrigido, ação comum nas revistas científicas, mas não foram atendidos. É sabido nos meios acadêmicos que os orientais têm uma dificuldade muito maior em redigir artigos em inglês. É comum serem aconselhados a procurar serviços profissionais de tradução. As diferenças linguísticas e culturais são muito grandes.
Acreditei nos autores ao ler o artigo. De fato, eles não estão propondo um Design Inteligente (ação direta de Deus em criar novos órgãos ou espécies). Citam mecanismos clássicos de evolução e só se referem ao “Criador” para falar das finalidades da mão, não à maneira como ela surgiu.
Entretanto, na realidade não importa se foi erro de tradução ou não. O artigo discutia dados experimentais e analisava a funcionalidade da mão. A questão do “desenho” complexo não passou de mero comentário no texto, que poderia ser excluído ou substituído sem prejuízo algum ao trabalho. No centro da confusão estão duas questões mais relevantes: a extensão do direito de censura das revistas científicas e o imenso preconceito da comunidade científica à mera menção de Deus por um pesquisador.
Os cientistas publicam suas pesquisas em artigos em revistas especializadas, que contam com a revisão de outros cientistas sobre o trabalho, aconselhando alterações ou até mesmo negando a publicação. As revistas têm um Editor que faz o meio de campo entre autores e revisores, que trabalham anonimamente. É comum o processo todo durar até um ano. Muitos cientistas reclamam do excessivo poder dos editores e revisores em aceitar ou negar publicações e exigir alterações de modo intransigente. Até o Einstein já teve seus problemas. No entanto essa revisão é necessária, para garantir a qualidade científica dos artigos e das revistas. Infelizmente, muitas vezes os limites do razoável são ultrapassados e viram censura pura.
Censura e intransigência é o que melhor descreve o ocorrido com o artigo dos chineses. A menção de um Criador era opção dos autores, não afetava o trabalho. Newton, Galileu e muitos outros se referiam a Deus constantemente nos seus textos. Por acaso podem ser acusados de anticientíficos? A revista também foi intransigente ao negar a simples alteração de termos solicitada pelos autores. Foram ignorados. Infelizmente até as revistas científicas, que zelam pela utópica neutralidade, têm seus preconceitos. E o preconceito religioso é um fato no mundo científico.

Deus se revela na Evolução

Escrito em 18/11/2016


Há algum tempo escrevi seis artigos sobre o papel da evolução na Ciência moderna, mostrando como as principais ideias científicas de hoje estão relacionadas ao conceito de conservação. As regras da conservação estabelecem quando e como a mudança pode acontecer, estabelecendo assim o que chamamos de evolução. Estudando as quantidades que se conservam em um sistema, e as condições em que isso é válido, fomos capazes de formular leis que descrevem o comportamento de quarks, moléculas, bactérias, ecossistemas, planetas, galáxias e do próprio universo!
No entanto, apesar do conceito de evolução estar tão bem posto na Ciência, ainda parece gerar desconforto em alguns meios cristãos. As razões para a desconfiança parecem ser múltiplas, vou citar as três mais comuns. Em primeiro lugar uma confusão entre “criação” e “evolução”. Depois, uma dogmatização imprópria do que os cristãos do passado pensavam sobre o universo. E, por fim, uma análise precipitada da onipotência divina.
Criação e Evolução são conceitos diferentes e complementares, evolui-se a partir de algo pré-existente. Assim, é perfeitamente conciliável com a doutrina cristã expressa no livro do Gênesis dizer que Deus criou todo o universo a partir do nada e que lhe deu capacidade de evoluir ao seu fim específico (entra aí o importante conceito filosófico de “finalidade”) por meio das leis da natureza que impôs à sua criação. Esse quadro em nada se opõe ao que a Ciência moderna nos revelou. Apesar da expectativa dos cientificistas, ela é incapaz de revelar a origem do universo e das suas leis. É uma incapacidade do seu próprio método empirista, não uma limitação que poderia ser superada com tempo e inteligência. Simplesmente está fora das suas próprias capacidades.
Com todo respeito e devoção que por justiça devemos aos nossos antepassados, especialmente àqueles santos doutores que deixaram sua sabedoria como tesouro para a Igreja, não é necessário que o sigamos no que pensavam em relação ao mundo natural. Se o que ensinaram sobre a fé é certo, não há porque supor que seus conhecimentos tão limitados sobre a natureza deveriam ser respeitados como infalíveis. Pretender impor a Filosofia antiga como chave de interpretação da Ciência moderna é, além de anacrônico, sinal de falta de capacidade de diálogo com o conhecimento, que também evolui.
Não obstante, alguns cristãos alegam que Deus poderia ter criado o universo há alguns milisegundos atrás e nós não seríamos capazes de provar o contrário. De fato, poderia, mas penso que seria algo muito aquém do poder de Deus. Teria mais glória um Deus capaz de criar um universo extremamente complexo, permitindo sua evolução, ou um Deus “piadista”, que nos colocou num lugar cheio de evidências de evolução e complexidades e nos deu razão para perscrutá-las, só para nos ver como tontos criando teorias?
Fazendo uma conexão com a Relatividade Especial, que uniu o espaço ao tempo, gosto de pensar na evolução como uma outra forma de ver a complexidade da criação, uma complexidade no tempo. Assim, podemos falar em complexidade de formas, de ações e de como tudo isso muda ao longo da história do universo. É possível fazer uma analogia com um quebra-cabeças. O universo tem uma finalidade, seria a imagem que se quer montar com o quebra-cabeças. Mas para montar essa imagem, precisamos seguir o desenho correto das peças e colocá-las no lugar previsto para cada uma. As leis físicas seriam esse desenho e posição de cada peça. Só um Deus onipotente seria capaz de criar um universo assim como o nosso, onde tudo se encaixa perfeitamente para montar um quadro final tão majestoso.
Imagine, no entanto, que para tornar o quebra-cabeças ainda mais desafiador, e assim exaltar mais a glória de quem o fez, que sua imagem mudasse com o tempo. Assim, como uma televisão quebra-cabeças. Seria muito mais difícil montá-lo, mas no final as imagens seriam espetaculares! A mudança com o tempo é o que eu chamo de reconhecer o tempo como parte dessa complexidade, que geralmente admiramos somente como algo estático.
No entanto, bem sabemos que para a Ciência moderna a aleatoriedade é um fator muito importante. Aleatoriedade não é acaso. Acaso é aquilo que não tem propósito, enquanto a aleatoriedade é a incapacidade de dizer quando ou como um fenômeno irá ocorrer. Essa incapacidade pode ser por falta de conhecimento nosso, como na Teoria do Caos, ou por uma indeterminação própria da natureza, como na Física Quântica ou nas mutações genéticas. Um decaimento radiativo é aleatório porque o instante em que vai acontecer não poder ser previsto, mas ele não acontece por acaso, tem uma finalidade: estabilizar o núcleo atômico.
Os fenômenos naturais aleatórios tornam nosso quebra-cabeças ainda mais fantástico! As peças mudam de formato, de imagem e de posição de encaixe sem podermos prever! Nosso objetivo é formar uma imagem composta de infinitas outras imagens a todo instante e alcançar um fim específico. Pense que além disso o livre arbítrio do homem torna tudo ainda mais difícil. Deus respeita nosso livre arbítrio nesse jogo e o usa para que toda a criação atinja seu objetivo.
Um Deus que consegue fazer tudo isso pode ser chamado verdadeiramente de onipotente. O universo existe no tempo, não há razões para excluí-lo da criação. Evolução é a criação acontecendo no tempo. Na Física chamamos isso de lei mais geral. Podemos descrever separadamente os campos Elétrico e Magnético, mas somente uma Teoria Eletromagnética (que une os dois campos) é capaz de explicar toda a variedade de fenômenos e toda a riqueza da realidade. Digo o mesmo do binômio criação-evolução. Podem ser compreendidos separadamente, mas é vendo-os como uma faceta da complexidade do universo no espaço e no tempo que somos capazes de compreender melhor toda a grandeza de Deus!

Colisões com a fé

Escrito em 09/2008


Há poucos dias um consórcio mundial, chefiado pelos europeus através do CERN, colocou em operação o maior acelerador de partículas já construído, conhecido por LHC. Pensado e construído para revolucionar a física de partículas, seu custo de alguns bilhões de euros despertou o interesse das pessoas e da mídia. Lamentavelmente, alguns erros graves sobre o LHC foram veiculados, confundindo muitas pessoas. É necessário, portanto, esclarecer pelo menos dois dos mais sérios.
Um acelerador de partículas é um equipamento construído pelos cientistas para esmigalhar partículas atômicas, chocando umas contra as outras à velocidades próximas a da luz. O objetivo é determinar as partículas fundamentais da natureza, aquelas que não podem mais ser divididas. Aceleradores vem sendo construídos há décadas. Cada vez mais potentes, avançam mais e mais aos segredos íntimos da matéria. Explicando os experimentos, há uma teoria, conhecida por Modelo Padrão, que classifica as partículas fundamentais e suas interações. Entretanto, ainda falta confirmar experimentalmente um aspecto fundamental da teoria. É aí que entra o LHC.
Todas as partículas e interações do Modelo Padrão já foram detectadas, exceto uma partícula conhecida por bóson de Higgs. Acredita-se que este bóson é o responsável por determinar a massa de todas as outras partículas fundamentais. A mesma teoria prevê, porém, que é preciso muita energia para detectar o bóson de Higgs. Daí a necessidade de um acelerador tão grande. Esta detecção é a última grande fronteira experimental do Modelo Padrão. Talvez justamente por isso, algumas pessoas tiveram a infelicidade de chamar o bóson de Higgs de “a partícula de Deus”. Dando a impressão de que ele tivesse algo de divino, ou que o divino se manifestasse de alguma forma. Claro, muitas pessoas não gostaram da comparação. E com razão, pois, de fato, a única coisa comparável a Deus nesta história foi o tamanho do ego das pessoas que criaram tal título. O bóson de Higgs não tem nada de divino. É só uma partícula difícil de detectar, e que se não o for, botará em sérios apuros os defensores do Modelo Padrão, para a alegria dos que acreditam nas teorias supersimétrias (como a de supercordas). Este foi o primeiro dos erros veiculados sobre o LHC.
O segundo equívoco foi o mais grave. Divulgou-se amplamente que o LHC iria recriar o Big Bang, a explosão inicial que deu origem ao universo. Algumas pessoas, mais apressadas, já imaginaram que agora o homem teria literalmente tomado a posição de Deus. A criatura se fez criador. Na verdade, tudo o que o LHC fará é criar um ambiente parecido (em termos físicos), com o existente logo depois dos primeiros instantes do Big Bang. É como dizer que se recriou o espaço sideral porque se atingiu baixas densidades e temperaturas numa sala. Estes, porém, não foram os únicos erros. Também falou-se em fim do mundo com o surgimento de mini buracos negros que engoliriam a terra, entre outras coisas, ainda mais estranhas.
Os exemplos citados me mostram duas lições. A primeira é que as pessoas têm interesse na ciência, basta uma boa divulgação para despertar a curiosidade. Entretanto, esta divulgação tem que ser responsável. E, neste caso, são responsáveis os jornalistas e os cientistas. Informações erradas confundem e podem, em último caso, transformar o interesse em negação, raiva. A segunda lição fica no âmbito da relação entre ciência e religião. Títulos como “a partícula de Deus”, ou afirmações de recriar o Big Bang tomando o lugar de Deus são, de certa forma, uma provocação aos crentes. A arrogância do conhecimento unicamente através do método científico já devia ter sido superada, como já aconteceu com a fé. Cientificismo não é ciência, assim como alienação não é religião. A fé e a ciência são meios complementares de alcançar a verdade que, para uns é Deus e para outros as leis naturais. Uma civilização madura culturalmente e religiosamente deverá saber lidar com isto. Caso contrário, só nos resta a ignorância, de nós mesmos e do universo.